O soldadinho de chumbo

Por Christiane Angelotti
(adaptado do conto de Hans Christian Andersen)

Ilustração: Idellete Bordigoni
Na estante de uma loja de brinquedos havia uma caixa de papelão com vinte e cinco soldadinhos de chumbo. Eram todos iguais, até porque haviam sido feitos com o mesmo molde. Porém, um deles só tinha uma perna. Foi o último a ser fundido e como faltou chumbo para completar a outra perna o artesão deixou o soldado no molde assim mesmo. Nasceu com defeito. Logo que ficou pronto o soldadinho perneta aprendeu a ficar em pé usando sua única perna e se esforçava para não fazer feio perante seus companheiros de caixa. Não queria que ninguém sentisse pena dele, nem vergonha.

Os soldadinhos de chumbo eram todos muito bonitos e elegantes, cada qual com seu fuzil ao ombro, túnica vermelha, calça azul e chapéu. Tinham o rosto de soldados corajosos. Aguardavam ansiosamente o momento em que passariam a pertencer a alguma criança. Assim, poderiam viver muitas aventuras.

Foi então que, em um belo dia de primavera, um homem entrou na loja com pressa, dirigiu-se diretamente para a estante onde estava a caixa dos soldadinhos e a pegou. Dentro da caixa os soldadinhos não enxergavam nada, só sentiam as sacudidas da caixa sendo embrulhada.

O tão sonhado dia chegou, a caixa foi dada de presente de Natal a um garoto. E foi o presente que ele mais gostou:

— Uau! Que soldadinhos lindos! — exclamou encantado.

O menino colocou todos enfileirados sobre a mesa. Nem deu mais atenção aos outros brinquedos. O soldadinho de uma perna só era o último da fila.

Ilustração: Nika Goltz
Ao lado dos soldados de chumbo havia um castelo de papelão, com um bosque de árvores verdinhas e um pequeno lago feito com um pedaço de espelho.

Na porta do castelo, em pé, havia uma jovem. Ela também era de papelão, vestia uma saia de tule franzida e um collant. Era muito bonita, tinha lindos cabelos negros, presos por uma tiara enfeitada com uma pequenina pedra azul.  Ela era uma bailarina, por isso mantinha os braços erguidos em arco sobre a cabeça. Uma de suas pernas estava dobrada para trás, tão dobrada que acabava escondida pela saia.

O soldadinho a olhou por alguns instantes e imediatamente se apaixonou. Imaginou que, assim como ele, aquela jovem tão bela tinha também só uma perna.

O soldadinho imaginou que a jovem pudesse ser uma princesa, afinal estava na porta do castelo. Pensou também que não teria chances de conquistar o seu coração, pois era um mero soldado de uma perna só.

À noite, antes de ir dormir, o menino guardou seus soldadinhos na caixa e não percebeu que aquele de uma só perna havia ficado no chão, atrás de uma almofada.
Ilustração: Nika Goltz

Quando o relógio bateu meia-noite, todos os brinquedos ganharam vida e saíram da estante, do baú, de todos os cantos do quarto para brincar. Parecia uma festa.

As bonecas convidaram os bichinhos de pelúcia para um chá com biscoitos. O trenzinho organizava uma expedição pelo quarto de brinquedos. E os soldadinhos de chumbo, fechados na caixa, tentaram a todo custo sair de lá para participarem das brincadeiras, mas não conseguiram.

O soldadinho de uma perna só e a bailarina não saíram do lugar em que haviam sido colocados. Ele a olhava à distância, queria chamá-la para conversar, mas faltava coragem.

De repente, um duende com uma cara muito estranha e que se achava o dono do pedaço apareceu, deixando os brinquedos visivelmente incomodados com sua presença.

— Por que você não está na caixa, com seus irmãos? — gritou o duende para o soldadinho.

Fingindo não escutar, o soldadinho continuou imóvel, sem desviar os olhos da bailarina. 

— Amanhã vou dar um jeito em você, você vai ver! Não pode ficar andando por aqui sozinho! — esbravejou o duende.  Depois disso sumiu na escuridão do corredor.

Na manhã seguinte, o menino tirou os soldadinhos de chumbo da caixa, pegou o soldadinho de uma perna só, que estava caído no chão, e os arrumou perto da janela para tomarem sol.

De repente, o vento abriu a janela e puxou a cortina fazendo com que o pobre soldadinho caísse de cabeça na rua. O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e foi correndo procurá-lo. Mas não o encontrou. Como ventava muito, desistiu.

Naquele dia, caiu uma tempestade. Quando a chuva passou, dois meninos se aproximaram da casa, brincando de pisar nas poças com suas galochas.  Um deles viu o soldadinho de chumbo gritou:

— Um soldadinho! Será que alguém o jogou fora porque está quebrado?

— Ele não tem uma perna! Que feio! — disse o outro menino.

— O que nós vamos fazer com um soldadinho só? Precisaríamos de mais para brincar de guerra.

— Vamos colocá-lo em um barco para virar um marinheiro?

Construíram, então, um barquinho com uma folha de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o barco para navegar na água da chuva que corria pela sarjeta parecendo um rio. Apoiado em sua única perna, com o fuzil no ombro, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio e a calma. O barquinho saltava em meio às ondas formadas pela água da chuva. Os dois meninos iam ficando para trás gargalhando com a brincadeira.

De repente, o barquinho foi jogado para dentro de um bueiro. Continuou a navegar, agora no subterrâneo, em meio à imensa escuridão. O soldadinho assustado só pensava na linda bailarina. Provavelmente nunca mais a veria. Logo agora que sua vida estava ficando realmente boa acontecia essa tragédia.

Ilustração: Anastasia Arkhipova
Já perdendo a esperança, viu duas luzes amarelas se aproximarem. Eram os olhos de um enorme rato de esgoto, que passou ao lado de seu barco perguntando:

— Você tem autorização para navegar por aqui? O que faz aqui? Saia daqui!

O soldadinho não respondeu, por puro medo, e o barquinho continuou seu caminho incerto e ligeiro, levado pela correnteza. Os gritos do rato exigindo a autorização foram ficando cada vez mais distantes, até sumirem.

Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz. Dessa vez era uma enorme claridade. Ficou aliviado.  Navegar pelo esgoto escuro não era nada agradável.

Mas os problemas do pequeno soldado de uma perna só ainda não haviam acabado. A água do esgoto desembocava em um rio, o barquinho caiu violentamente e foi destruído pelas águas.  O soldadinho, por ser de chumbo, afundou, caindo, caindo, até parar no fundo do rio.

“Este é o meu fim.” — Pensou ele.

Poucos minutos depois de ter chegado ao fundo do rio apareceu um peixe grande que engoliu o soldado junto com algumas plantinhas do leito do rio. O soldadinho se viu novamente em uma imensa escuridão. Estava espremido no estômago do peixe. Mesmo assim não deixava de pensar em sua amada. “Será que ela percebeu a minha ausência?”

O pequeno soldado era bastante corajoso, pois não se desesperou, nem chorou. Só sofria por amor e saudade.

O tempo passou. Não se sabe quanto.

De repente, a escuridão desapareceu e o soldadinho de chumbo ouviu quando falaram:

— Que coisa mais estranha! Um soldadinho de chumbo! E ele é igual ao perneta que caiu da janela!

Ilustração: John Patience
Vamos explicar o que aconteceu. O peixe havia sido fisgado por um pescador, levado ao mercado e vendido. A cozinheira que comprou o peixe para fazer um ensopado, por pura coincidência, talvez por destino, trabalhava na casa do menino que havia ganhado o soldadinho no Natal.

Ao limpar o peixe, a cozinheira encontrou dentro dele o soldadinho e levou diretamente ao garotinho, que fez a maior festa ao revê-lo.

Depois de limpo, o soldadinho foi colocado sobre a mesma mesa em que estava antes de voar pela janela. Nada havia mudado. Estava tudo lá: o castelo de papel, o pequeno bosque de árvores, o lago. E, na porta do castelo, ela, a bailarina, sempre na mesma posição, com os braços erguidos acima da cabeça. Parecia ainda mais bela.

Nosso bravo soldadinho olhou para a bailarina e suspirou aliviado. Ela também olhou para ele, mas não trocaram nenhuma palavra. Sentiam-se felizes por estarem novamente juntos.

Ele gostaria de lhe contar toda a sua aventura. Talvez a linda bailarina apreciasse sua coragem. Quem sabe, até se apaixonaria por ele?

Enquanto o soldadinho pensava em como se aproximar da bailarina, o garotinho brincava com seu pião. No instante seguinte, o irmão caçula do garotinho pegou o soldadinho e, sabe-se lá o porquê, atirou-o na lareira, em meio às labaredas do fogo.

O pobre soldadinho sentiu o calor das chamas que faziam seu corpo amolecer. Já não tinha mais roupas, pois o fogo as consumiu. Ele ainda laçou um último olhar para a bailarina, como despedida, e ela o retribuiu com silêncio e tristeza. Podia-se ver uma pequenina lágrima escorrer pelo seu rosto.

Naquele momento, a janela escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez voar o castelo de papelão e a bailarina. Ela caiu diretamente na lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente.  Da bailarina só restou a pedrinha azul de sua tiara. Do soldadinho apenas seu coração de chumbo em meio às cinzas da lareira.

Proibida a reprodução do texto acima sem a autorização prévia da autora.



Curiosidades

- O Soldadinho de Chumbo é um conto de fadas escrito por Hans Christian Andersen e publicado pela primeira vez em 1838. 
- A Coleção Disquinho lançada pela gravadora Continental, em 1960, apresentava uma coleção de histórias em pequenos discos de vinil coloridos. Cada disco trazia uma história com músicas interpretadas pelo Teatro Disquinho, com narração de Sônia Barreto. As músicas eram compostas e adaptadas por João de Barro e orquestradas por Radamés Gnattali.



Para conferir o áudio do "Soldadinho de Chumbo" acesse:
https://www.youtube.com/watch?v=xD41Rgcl_DY