O Patinho Feio


Por Christiane Angelotti
(adaptação do conto de Hans Christian Andersen)


Mamãe pata havia escolhido um lugar aconchegante para fazer seu ninho: quentinho, protegido em meio às folhagens e próximo ao rio que contornava o vilarejo.

Bem perto dali havia um lindo bosque, com um jardim florido. O aroma das flores se espalhava no ar e perfumava o ninho da jovem mamãe pata que suspirava ao sentir aquele perfume delicado enquanto chocava seus ovos.

Era preciso muita paciência, mas isso não faltava àquela mãe dedicada.

Após longa espera, vinte e oito dias se passaram, os ovos se abriram um após o outro, e de dentro deles surgiram, engraçadinhos e pequeninos, os patinhos amarelos que, imediatamente, saltaram do ninho.

Um dos ovos, porém, não se abriu. Era um ovo grande e a mamãe pata pensou que não o chocara o suficiente. Impaciente, deu umas bicadas no ovo, que logo começou a romper.

No entanto, em vez de um patinho amarelinho saiu uma ave cinzenta e desajeitada. Mal parecia um pato.

Para ter certeza de que o recém-nascido era um patinho, e não outra ave, a mamãe pata foi com ele até o rio e o obrigou a mergulhar junto com os outros.

Ao vê-lo nadar com naturalidade e alegria, suspirou aliviada. Era só um patinho muito, muito feio.

Após o susto inicial, resolveu levar a família para conhecer os outros animais que viviam no bosque.

Todos parabenizaram a pata. A sua ninhada era realmente muito bonita. Mas aquele patinho cinza era realmente muito estranho.

 Nossa que estranho! — cochichavam os porquinhos.

— É meio grande e sem graça! — disse o peru.

— Acho que tem algum problema — comentaram as galinhas.

Os dias se passaram e o falatório só aumentava. Todos os bichos, inclusive os patinhos irmãos, perseguiam o patinho feio. Ele era motivo de piadas, levava empurrões e um de seus irmãos até afundou sua cabeça na água.

 Você é feio! Que pato estranho!  — era o que o pobre patinho mais ouvia.

A mamãe pata no princípio defendia seu filho, mas depois de alguns dias passou a sentir tanta vergonha que evitava sua companhia.

O pobre patinho crescia solitário, malcuidado e desprezado. Sofria muito.

 As galinhas o bicavam a todo instante, os pavões o perseguiam com ar ameaçador. Contudo, era o desprezo de sua mãe o que mais o entristecia. Ela o ignorava e todos já haviam percebido.

Um dia, desesperado e extremamente triste, o patinho feio resolveu fugir. Queria ficar longe de todos os que o rejeitavam. Ele não compreendia bem o motivo, apesar de ter consciência de ser diferente dos demais, e se perguntava: “Não são todos os animais diferentes uns dos outros? Por que o fato de eu ser diferente incomoda tanto?”

Depois de caminhar quase um dia inteiro, o patinho feio chegou perto de um grande brejo, onde viviam alguns marrecos. Foi recebido com indiferença, ninguém ligou para ele. Mas não foi maltratado nem ridicularizado; a ele, que só conhecia o sofrimento, isso parecia ser o suficiente.

Infelizmente, a paz não durou muito tempo. Numa certa madrugada, o silêncio do brejo foi interrompido por um tumulto e barulho. Os caçadores haviam chegado.
Alguns marrecos perderam a vida. Por sorte, o patinho feio conseguiu se salvar, escondendo-se no meio da mata.

O patinho feio resolveu caminhar pela mata. O brejo não era um lugar seguro como parecera a princípio.

Novamente caminhou, caminhou, procurando um lugar para viver.

Ao entardecer chegou a uma casa de madeira. Ela ficava em um lugar bonito cercado por árvores. A porta estava entreaberta, e ele conseguiu entrar sem ser notado. Lá dentro, cansado e tremendo de frio, se encolheu num cantinho e logo dormiu.

A casa era de uma senhora que morava em companhia de um gato, especialista em caçar ratos, e de uma galinha, que todos os dias botava o seu ovinho.

Na manhã seguinte, quando a dona da cabana viu o patinho dormindo em um canto, ficou toda contente.

— Talvez seja uma pata. Se for, uma hora botará ovos, e eu poderei preparar bolos e tortas, pois terei mais ovos. Poderei até vender e ganhar dinheiro. Que sorte a minha! — pensou.

Mas o tempo passava e nenhum ovo aparecia. A velha senhora começou a perder a paciência. A galinha e o gato, que desde o começo não viam com bons olhos o recém-chegado, foram ficando agressivos e briguentos.

Ilustração: Anton Lomaev

Mais uma vez, o patinho preferiu deixar a segurança de um lar e se aventurar pelo mundo.

Caminhou muito e parou próximo a uma lagoa. Parecia ser um lugar tranquilo.

Enquanto durou o verão, as coisas não foram ruins. O patinho passava boa parte do tempo dentro da água e lá mesmo encontrava alimento.

Mas o inverno se aproximava. As folhas das árvores já haviam caído. As águas do lago estavam bastante geladas e os peixes não apareciam com frequência.

Sozinho, triste e com muita fome, o patinho pensava, preocupado, como seria sua vida a partir dali.

Alguns dias depois, no final da tarde, surgiu entre os arbustos um grupo de aves grandes e belas. Tinham as plumas brancas, as asas grandes e longo pescoço, delicado e sinuoso, eram cisnes, emigrando na direção de regiões quentes. Lançando estranhos sons, bateram as asas e levantaram voo.

O patinho ficou encantado, olhando a revoada, até que ela desaparecesse no horizonte. Sentiu uma grande tristeza, como se tivesse perdido amigos muito queridos.

Com o coração apertado, lançou-se na lagoa e nadou durante um longo tempo. Não conseguia tirar o pensamento daquelas aves maravilhosas.

Sentiu-se ainda mais feio, mais sozinho e mais infeliz do que nunca.

Então, o frio chegou sem piedade e o patinho feio precisava nadar sem parar, para que a água não congelasse em volta de seu corpo. No entanto, era uma luta perdida. Exausto, permaneceu imóvel por tempo suficiente para ficar com as patas presas no gelo.

— Agora vou morrer — pensou. — Assim, terá fim todo meu sofrimento.

Fechou os olhos, e o último pensamento que teve antes de cair no sono foi com as grandes aves brancas.

Na manhã seguinte, um camponês que passava por ali viu o pobre patinho, já meio morto de frio.

Quebrou o gelo com um pedaço de pau, libertou o pobrezinho e levou-o para sua casa.

 Lá o patinho foi alimentado e aquecido, recuperando um pouco de suas forças. Logo que deu sinais de vida, os filhos do camponês se animaram:

— Vamos ensiná-lo a voar!

Os meninos seguravam o patinho, apertavam-no, beijavam-no. Eles não tinham más intenções, mas o patinho, acostumado a ser maltratado, atormentado e ofendido, se assustou e tentou fugir.

Caiu de cabeça num balde cheio de leite e, esperneando para sair, derrubou tudo. A mulher do camponês começou a gritar e o pobre patinho se assustou ainda mais.

Acabou se enfiando no balde da manteiga, engordurando-se até os olhos e, em seguida, em um saco de farinha, levantando poeira. A cozinha parecia um campo de batalha. Irritada, a mulher do camponês expulsou o patinho de casa.

O patinho correu, cambaleando na neve. Conseguiu voar baixinho, embora o frio o atrapalhasse.

Sobreviveu ao inverno como pôde, se escondendo nos arbustos que encontrava, no buraco de um tronco, e comendo o mínimo para viver.

O inverno, enfim, terminou, e a primavera trouxe todo o perfume das flores no ar. A mata encheu-se novamente de vida e movimento. Os animais apareciam para caçar, passear, tomar sol.

Lá no alto, no céu azul, voavam muitas aves. Um dia, observando-as, o patinho sentiu um inexplicável e incontrolável desejo de voar.

Então, ele abriu as asas, que tinham ficado grandes, e pairou no ar. Deu um longo voo. Chegou a um jardim imenso repleto de flores e árvores. E do meio das árvores surgiram três aves brancas.

O patinho reconheceu as lindas aves que vira antes e sentiu um grande encantamento por elas.

— Queria morar com elas — murmurou.

Temia ser rejeitado, mas depois de tudo que passara, resolveu tentar uma aproximação.

Com um leve toque das asas, abaixou-se até o pequeno lago e pousou sobre a água.

Abaixou a cabeça, aguardando ser insultado e expulso. Ao fazer isso, viu a própria imagem refletida na água e seu coração entristecido deu um salto. O que via não era a criatura desengonçada, cinzenta e sem graça de outrora. Enxergava as penas brancas, as asas grandes e o pescoço longo e sinuoso.

Ele era um cisne! Um cisne, como as aves que tanto admirou.

— Bem-vindo, amigo! — disseram-lhe os três cisnes, curvando os pescoços, em sinal de saudação.

Aquele que no passado distante fora um patinho feio, humilhado, desprezado e atormentado, sentia-se agora tão feliz que se perguntava se não era um sonho.

Mas ele não estava sonhando, nadava em companhia de outros como ele, com o coração cheio de alegria.
Ilustração: Anastasia Arkhipova

Dias depois passaram pelo jardim três meninos para dar comida aos cisnes.

O menorzinho disse, surpreso:

— Tem um cisne novo! E é o mais belo de todos! — E correu para chamar os pais.

— É mesmo uma criatura belíssima! — disseram os pais.

Os meninos jogaram pedacinhos de pão para os cisnes. Tímido diante de tantos elogios, o mais belo entre eles escondeu a cabeça embaixo da asa, e se lembrou de como já se sentia esquisito, dos insultos que sofreu, da solidão..., no entanto, hoje, admirado e com amigos de verdade, havia finalmente encontrado a felicidade.




Proibida a reprodução do texto acima sem a autorização prévia da autora.




Curiosidades


O Patinho Feio é um dos mais populares contos de Hans Christian Andersen.
Os estúdios Disney criaram a tradição de adaptar clássicos da literatura mundial infantil, e o famoso conto de Andersen publicado originalmente em 1843 não ficou de fora.
A Disney fez duas versões diferentes do conto do pequeno cisne rejeitado por ser diferente de seus irmãos, uma de 1931 e outra de 1939. A de 1939 é uma versão melhorada da anterior.
Como em todas as adaptações e versões há mudanças comparando com a história original. O curta-metragem, por exemplo, é uma versão bem resumida da obra original, mesmo assim mantém a essência do original e  merece ser visto.