A Pequena Vendedora de Fósforos

Por Christiane Angelotti
(adaptação do conto de Hans Christian Andersen)

Natalia Demidova 
Aquele foi um dos mais terríveis invernos. Nos momentos em que a neve parava de cair o vento gelado e cortante assumia seu lugar. Mas nem isso tirava as pessoas das ruas, afinal era véspera de Natal e todos estavam apressados para comprar os últimos presentes.

A cidade estava toda iluminada e enfeitada. Havia uma imensa árvore de Natal na praça central, linda e colorida. Àquela altura dos preparativos ninguém mais parava para admirá-la, tendo se acostumado com a árvore, os enfeites e a pressa das pessoas. 

Em meio ao frio e à multidão surgiu uma menininha, com um vestido fino e desbotado, coberto por um avental com um grande bolso e um casaco igualmente fino. Seus pés descalços estavam meio azulados por causa do frio. Ela caminhava devagar. 

Quando a menina saiu de casa usava um par de tênis, mas de nada adiantavam. Eram sapatos tão grandes para seus pezinhos, os antigos tênis de sua mãe.  A menininha os perdera quando caiu ao correr na rua, onde duas carruagens passaram terrivelmente depressa. 

Dentro do avental carregava alguns fósforos e um pequeno punhado deles na mão para vender. Contudo, ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e assim ela não ganhou um níquel sequer. 

Tremendo de frio e com muita fome, a pequena vendedora de fósforos seguia andando bem devagar oferecendo o punhado em suas mãos para quem quisesse comprar. Os flocos de neve caiam sem parar e cobriam seus cabelos. Ninguém parecia enxergá-la e quando muito, desviavam da pequena menina como quem desvia de um objeto qualquer. 

Marta Sedano
Em uma esquina ao lado de uma pequena escadaria ela parou para descansar. Queria continuar vendendo os fósforos, pois temia voltar para casa sem dinheiro algum e ser espancada pelo pai. Suas mãozinhas estavam duras de frio. Então, ela se encolheu e tentou permanecer ali protegida do frio. Resolveu acender um fósforo para ver se aquecia suas mãos.

Tirou um do bolso e trec! O fósforo lançou faíscas e acendeu. Uma chama linda se fez.

Que luz maravilhosa! Pensou a menina.

Com aquela chama acesa a menininha imaginava que estava sentada diante de uma lareira de tijolos com fogo estalando lá dentro.  Como o fogo ardia! E como era confortável! Mas a pequena chama logo se apagou e a lareira desapareceu, deixando apenas os restos do fósforo queimado.

Resolveu, então, riscar um segundo fósforo. Ele acendeu e quando a sua luz iluminou a parede ela se tornou transparente como um tule. A menina pode enxergar a sala do outro lado. Na mesa, em cima de uma linda toalha vermelha, estava arrumada uma bela porcelana. Um grande peru assado fora colocado no centro da mesa, ao lado, pratos cheios de comidas belas e deliciosamente perfumadas. A menininha suspirou. O fósforo, então, apagou. A parede voltou a ser fria e úmida.

A menina acendeu outro fósforo e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto no centro da praça. Velas acesas iluminavam os ramos verdes e cartões coloridos, iguais aos que se veem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para pegar os cartões, mas nisso o fósforo apagou. As luzes do Natal brilhavam tão intensamente! Ela as via como se fossem estrelas no céu. Uma delas caiu, formando um longo rastro de fogo. 

"Alguém está morrendo", pensou a menininha, pois sua avó, a única pessoa que ela amava e que já havia morrido lhe disse certa vez que quando uma estrela cai do céu uma alma sobe para Deus. 

Ela riscou outro fósforo; ele acendeu e, em meio à luz, sua avozinha apareceu muito linda e sorridente. 

– Minha vovó!, exclamou a criança. Me leve com a senhora! Não desapareça quando o fogo apagar!

E rapidamente acendeu todo o punhado de fósforos, pois queria reter diante dela sua querida avó.  Os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia.

Então sua avó se aproximou e pegou a menininha nos braços. Ambas voaram felizes, num abraço que aquecia todo o corpo frio. Subiram cada vez mais alto até desaparecerem no meio das estrelas. 

Na esquina, perto da escadaria e encostada na parede, ficou sentado o corpo da pobre menininha de faces rosadas e boca sorridente, que a morte levara naquela derradeira noite de Natal. Ao seu redor um punhado de fósforos queimados. 
Ao amanhecer uma multidão que por ali passava parava para ver a cena.

– Morreu querendo se aquecer, diziam alguns. 

Porém, ninguém imaginava como foi belo o reencontro da menininha com a sua avó e a felicidade que ela sentiu naquela noite de Natal.

Curiosidades

A animação baseada no conto "A Pequena Vendedora de Fósforos", escrito por Hans Christian Andersen, foi transformada em animação pelos estúdios Disney em 2007.  A animação sem falas suscita a reflexão sobre questões como: o abandono, a miséria, a fome, a indiferença e a exclusão. 

Título original: The Little Match girl. Curta de animação indicado ao Oscar 2007.


Assista aqui: https://dovga.com/video/5873/the-little-matchgirl




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