sábado, 8 de setembro de 2018

A brincadeira na hora do recreio

Por Christiane Angelotti

O que há de tão especial na hora do recreio? Não é preciso pensar muito para responder, a resposta dada pelas próprias crianças é quase sempre a mesma: o brincar. O brincar livre, espontâneo, que promove socialização, diversão, criação.

No recreio as crianças relaxam da rotina de sala de aula, interagem livremente com os amigos e ainda comem algum lanche gostoso. Muitas vezes é o único momento na escola em que elas podem fazer suas próprias escolhas: do que e como vão brincar, de quem irão se aproximar, entre ouras. 

O recreio é um momento significativo na vida da criança e por isso deveria ser tratado com mais atenção. A escola é também um lugar de socialização e promover esse tempo, ter atenção e ensinar a criança e o jovem a lidar com conflitos também é tarefa da comunidade escolar. Além dos eventuais conflitos que podem acontecer e serem evidenciados na hora do recreio, há também o isolamento de alguns alunos que, seja por timidez ou por sofrerem bullying, devem ser acompanhados de perto.


Estudos recentes, como relatório anual da American Academy of Pedriatrics (AAP), publicado em agosto deste ano, reforça o papel da brincadeira para o desenvolvimento integral da criança. E afirma ainda que brincar representa o desenvolvimento saudável da criança, uma chave para as habilidades das funções chamadas de executivas (habilidades cognitivas que nos permitem controlar e regular nossos pensamentos, emoções e ações diante dos conflitos ou das distrações), além de servir como um amortecedor contra os impactos negativos do estresse. Além disso, a brincadeira constrói vínculos com os amigos e reforça os vínculos familiares.

A AAP já havia realizado estudos sobre a importância da hora do recreio nas escolas. Tanto por ser uma pausa na rotina das aulas, como por ser um momento de propiciar a brincadeira já que as crianças não aprendem apenas na sala de aula, mas também nos parques infantis e durante momentos de lazer, reforçando a importância da aprendizagem lúdica.

The Crucial Role of Recess in Schools (O Papel Crucial do Recreio nas Escolas), relatório da AAP reforça os benefícios socioemocionais, intelectuais e cognitivos de um recreio bem planejado pelas escolas. E adverte ainda para os perigos de uma tendência que vem aumentando em alguns países, a diminuição do tempo de recreio e dos espaços para brincar. As crianças americanas, por exemplo, têm em média 26 minutos de recreio. Na Finlândia, onde o ensino é considerado um dos melhores do mundo, esta média sobe para uma hora. 

Muitas vezes, ao colocar o foco nas matérias acadêmicas tradicionais, ignoramos a maior necessidade da criança em seu processo de desenvolvimento, justamente o brincar. Em algumas escolas o recreio é utilizado como punição para comportamentos inadequados. A criança ou adolescente se comportou mal e fica na sala de aula durante o recreio. Esse cenário não somente traz consequências negativas para crianças e professores, como também caminha em desacordo com as propostas pedagógicas das escolas mais inovadoras do mundo.

Brincar com os pais e amigos é fundamental para o desenvolvimento de um conjunto de habilidades do século XXI, incluindo habilidades sociais, emocionais, linguísticas e cognitivas, todas necessárias para a próxima geração num mundo economicamente competitivo que requer colaboração e inovação. Os benefícios da brincadeira não podem ser desvalorizados em termos de atenuar o estresse, melhorar as habilidades acadêmicas e ajudar a construir relações seguras, estáveis e estimulantes que protegem contra o estresse e aumentam a resiliência socioemocional, acrescenta Michael Yogman, pediatra e principal autor do relatório da AAP.

Um estudo realizado com crianças entre três e quatro anos, que passavam pela fase de adaptação escolar na educação infantil, fase que muitas vezes gera insegurança e ansiedade, ficaram duas vezes menos estressadas quando lhes foi permitido brincar com os professores ou colegas durante 15 minutos, comparadas com outros colegas que faziam a adaptação ouvindo o professor contarem uma história.

Apesar dos benefícios visíveis da brincadeira, o espaço propiciado para que ela aconteça em ambiente escolar tem sido ameaçado ao longo dos últimos anos devido, principalmente, a mudanças sociais.

Tendo por base a realidade americana, uma pesquisa publicada na Advances in Life Course Research entre 1981 e 1997, o tempo para brincar diminuiu 25%, e 30% das crianças na educação infantil viram o recreio ser substituído por aulas acadêmicas. Outra pesquisa realizada a nível nacional nos EUA com 8.950 crianças em idade pré-escolar demonstrou que apenas 51% das crianças saíam para passear ou brincar uma vez por dia com os pais. Os pais também revelam um maior receio em deixar as crianças brincar na rua, por questões de segurança.

No entanto, outros elementos de distração da atualidade afastam as crianças da brincadeira, como o excesso do uso de aparelhos eletrônicos, como a televisão, celular e tablets. Os aparelhos digitais oferecem experiências positivas, mas não podem tirar o tempo da brincadeira, seja ao ar livre ou em espaços fechados. Pensando nisso a AAP recomenda que a brincadeira seja incentivada, promovendo a vontade natural da criança em brincar. Pediatras apóiam programas que incentivam a leitura e incentivam a aprendizagem lúdica para bebês, prescrevendo uma “receita para brincadeiras” ao longo dos primeiros dois anos de vida da criança.

Algumas escolas optam por promover a integração entre os alunos do ensino fundamental com o recreio dirigido, no qual as crianças são orientadas por um adulto em diferentes atividades como brincadeiras tradicionais folclóricas, jogos com bolas, jogos de tabuleiro e também podem desenvolver brincadeiras livres com outros grupos de crianças.

A brincadeira, seja na hora do recreio, em todos os momentos de lazer da criança é a base para o seu desenvolvimento saudável.

Alguns benefícios do recreio:

1. Funciona como uma válvula de escape, gerando bem-estar emocional.
2. A exposição ao ar livre e ao sol estimula a glândula pineal, o que ajuda na sensação de bem-estar.
3. Alunos que são ativos na escola são mais propensos a ser ativos também em casa.
4. Pequenos períodos de explosão de energia ao brincar contribuem para um estilo de vida mais saudável.
5. Para muitas crianças o recreio é o único momento do dia para socializar com outras crianças.

Fontes consultadas