domingo, 3 de dezembro de 2017

Viajar é muito bom, quem não gosta?

Crônica do escritor Manuel Filho fala sobre sua paixão por bibliotecas

Por Manuel Filho

Escritor Manuel Filho
Ser levado a algum destino novo, do qual nada sabemos, pode ser uma experiência renovadora. Descobrir costumes diferentes, aromas e sabores. Encontrar um objeto bonito que poderá nos lembrar de dias mágicos para sempre.

Há aquelas viagens por lugares paradisíacos, de praias encantadoras, dunas ou florestas. Também existe o turismo urbano pelo qual visitamos vestígios de histórias, de embates. Ergueram-se monumentos que encantam a todos como o Cristo Redentor, o Taj Mahal ou o Big Ben. Igualmente pode provocar encantamento um museu, um restaurante ou um mercado antigo.




Taj Mahal, Índia
É possível apostar que muitas pessoas concordem sobre o que acabou de ser descrito quando pensam em fazer uma viagem. Natural.  Ainda é valido mencionar aqueles que gostam de fazer compras, simplesmente.

Entretanto, depois de viagens frequentes, novas oportunidades começam a surgir. Passamos a querer conhecer melhor como de fato vivem as pessoas de uma localidade; não é mais satisfatório ficar confinado em roteiros turísticos repletos de obviedades.

Assim, um dia, um turista resolve visitar um lugar que nunca lhe pareceu exatamente turístico, embora alguns verdadeiramente o sejam.

E que lugar seria esse?

Uma biblioteca!

Agora, falo por mim. Eu passei a incluir bibliotecas em meus passeios sempre que me localizo em alguma cidade nova.

E tenho dado sorte.

Farol do Saber, Curitiba
Posso dizer que a primeira que me causou um impacto positivo foi Curitiba. Durante uma conversa, uma pessoa me sugeriu que eu fosse ver uma das quarenta e três unidades das Bibliotecas Farol do Saber. Eu fiquei curioso, pois fui informado de que se tratavam de prédios com faróis, desses que existem no litoral e funcionam como guias ou referências para embarcações. A ideia seria a de que serviriam como luzes indicativas de que naqueles locais existe o conhecimento, o saber.

Dirigindo meu carro pela cidade acabei encontrando com um dos faróis, tão inusitado e diferente de todos os edifícios que me cercavam. Estacionei e entrei no prédio, baixinho, uma imitação daquelas edificações de marinheiros à margem de encostas marítimas. Fui muito bem recebido e a bibliotecária me deu a chave para que eu conhecesse o topo do farol. Subi a escada em caracol e, de repente, me vi no alto, olhando para Curitiba e suas belas araucárias.

Bosque do Alemão
Poderia discorrer longamente sobre minhas sensações, mas outras bibliotecas estão aguardando sua vez de aparecer neste relato. Segui para o Bosque do Alemão. Deparei-me com uma casa bem grande de evidente arquitetura germânica. Diante dela, via-se uma plataforma de madeira que terminava em um mirante. Segui o traçado e descobri uma longa escadaria que conduzia a um plano inferior. Desci os degraus e me vi em um belo bosque de mata bem fechada.  Notei que existiam simpáticas "estações", como se fossem pequenos pontos de parada de ônibus com uma cobertura. Ao fundo, observava-se um painel que contava um trecho da história de João e Maria. O caminho pelo bosque seguia tortuoso e a história prosseguia pelas demais estações, trecho a trecho, até o fim da trilha, quando se desvendaria o que aconteceu com aquelas duas crianças.

Porém, havia algo ainda mais esplêndido. Uma bela cabana no meio do trajeto e, dentro dela, contadoras de histórias vestidas de bruxas prontas para revelar o que sabiam. 

Biblioteca Islâmica
Caminhei até o fim do bosque, ou conto, e parti em direção ao novo descobrimento no centro da cidade: a Biblioteca Islâmica, um cubo vermelho que se erguia atrás de um discreto espelho d’água.

Restavam outras para conhecer, entretanto, permaneci nessas. Fiquei realmente encantado por ver edifícios tão bem pensados, cuidados em rotas interessantes, porém, verificava-se um problema: senti falta de vida, de atividades.  Reconheci o carinho das bibliotecárias e das contadoras de histórias, tão importante, mas não percebi nas construções a luminosidade de um encontro literário, um curso, concurso de poemas, ou qualquer atividade que permitisse a realização de algo inerente às bibliotecas: a expansão, o compartilhamento do saber.

Materialmente, muito está lá, no entanto, lamentei a ausência dessa vibração de vida, algo que estimulasse os leitores a ganhar aquele conhecimento, prazer e/ou diversão, ali tão perto.

Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro
E continuei minha saga. Visitei bibliotecas em Belém, em Florianópolis, em São Paulo, no Rio onde, aliás, conheci o Real Gabinete Português de Leitura, talvez uma das mais belas do mundo.

Incluí, definitivamente, as bibliotecas em minhas viagens. Eu me considero filho de uma, a Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo (SP), que me acolheu em minha infância e fez de mim um leitor apaixonado e curioso pelas coisas do mundo.


Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo


Esta história permanece em construção, sempre terei novas descobertas, assim, não me cabe concluir nada ainda, afinal, um dos maiores clichês a respeito de livros é a afirmação de que podemos viajar por meio da leitura. Eu, a partir de um momento bem recente, viajo em busca deles.





Manuel Filho, um curioso sobre todas as histórias que, por acaso, também é escritor. Agraciado com o prêmio Jabuti 2008. Possui mais de 50 livros publicados por editoras como Melhoramentos, Besouro Box, Ática, Saraiva, Editora do Brasil, Panda Books, Mundo Mirim, Paulus, entre outras. Seu livro, O sumiço da Lua, integrou o catálogo da Feira do Livro Infantil de Bologna-2015 e Sensor, o game, o da Câmara Brasileira do Livro (CBL) Frankfurt-2013. Foi finalista, em 2013, do prêmio Açorianos com A menina que perdeu o trem, Besouro Box. Viaja por todo o Brasil participando de feiras e encontros literários: Feira de Porto Alegre, FELISB SBC e Bienal do Livro de São Paulo, entre outros. Também é ator e cantor. Já gravou três CDs: Tempo (2007), Raízes (2010), Cantando de Brincadeira (2015). Integra os projetos literários do SESI-SP desde 2011. Como ator, atuou em grandes espetáculos teatrais como Os Lusíadas, O Mágico de Oz, e A Luta Secreta de Maria da Encarnação, último espetáculo escrito por Gianfrancesco Guarnieri. Escreveu para revistas, televisão e programas de rádio.

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