sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Para que serve uma biblioteca

Por Christine Castilho Fontelles

"Não entendi nada!". Um número expressivo de pessoas, jovens e adultos, vive cotidianamente este tormento de efeito paralisante diante de uma bula de remédio, de um trecho de texto jornalístico, do assunto de uma prova, de uma mensagem qualquer, uma opinião, um poema. Não nascemos sabendo e nem gostando de ler, por isso é preciso educar para ler desde a primeira infância, ler gêneros diversificados, ler literatura, e SIM, a biblioteca é a casa do leitor e suas portas devem estar escancaradas para ele!

Afinal, para que serve a biblioteca?


A biblioteca pública aberta à comunidade é o lugar por excelência para termos acesso gratuito aos recursos e atendimento para que possamos fazer nossas consultas, empréstimos, pesquisas e nos tornarmos leitores. Educar para ler é uma missão que requer esforço, concentração e criatividade, principalmente em uma época com excesso de informações midiáticas e escassez de tempo, como a nossa. Logo, é fundamental que a biblioteca seja viva e se prepare para atrair e reter usuários com estratégias pensadas e sistematicamente ofertadas aos seus vários públicos: bebês, crianças, jovens, adultos. Se alguém entra para ler jornal, por exemplo, pode ser cuidadosamente envolvido e convencido a testar outras leituras. Bibliotecas bacanas ficam subutilizadas muitas vezes porque falta este tipo de atendimento (conheci uma belíssima biblioteca-parque em Bogotá que passava os dias da semana praticamente vazia de público para tudo). Como acontecia nas boas locadoras de "antigamente", tinha sempre um funcionário que nos apresentava aquele novo filme com aquele ator e aquele tema do nosso interesse e, dias depois, nos convencia a testar aquele filme com aquele ator que daquela vez fazia o papel de alguém que... E lá íamos nós, saltitando entre comédia, drama, romance, ficção-científica, cult, film noir... testando palpites do cúmplice e aliado dessa aventura cinematográfica. Ou seja, minha convicção é de que não há jornada leitora sem o apoio de um leitor, no caso, um bibliotecário-leitor. Os seres humanos precisam uns dos outros para aprender e neste caso não é diferente, ao contrário, é essencial.

Deve ficar ao gosto e às possibilidades do leitor se será em suporte impresso ou digital; por exemplo, na Biblioteca de São Paulo (zona norte da cidade de São Paulo), Kindles estão disponíveis para os usuários, mas por enquanto só podem ser usados dentro da própria biblioteca.  Em países da Europa e nos EUA já existem empresas como a Public Library Online, que disponibilizam acervo digital aos usuários de bibliotecas públicas, que podem baixá-los em seus próprios dispositivos eletrônicos. O que precisamos é ler, ler, ler, como dizia Castro Alves: "Bendito o que semeia livros à mão cheia. E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma. / É germe — que faz a palma, / É chuva — que faz o mar!".

Acervo atraente e permanentemente atualizado, conforto térmico, iluminação adequada, atendimento cotidiano, incluindo noites e feriados, são outros fatores determinantes para o seu bom desempenho. A capacidade das bibliotecas de promover a leitura depende diretamente do uso que se faz delas. E o uso será cada vez mais intenso quanto melhor for a qualidade dos serviços prestados. E daí derivarão outros impactos.

Rede de conectividade

A criação de uma rede de conectividade (internet banda larga) entre as bibliotecas é mais uma forma de promoção do intercâmbio de experiência e renovação do conhecimento, sobretudo em um país como o nosso, com as proporções territoriais e diversidades, de modo a romper a defasagem que o isolamento geográfico inevitavelmente gera.

E, sim, bibliotecas em escola, comprometidas com seu projeto pedagógico e preferencialmente abertas à comunidade, pois há rincões neste país, mesmo em centros urbanos como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde a escola é a única possibilidade de contato com a educação e a cultura. Além do que, é uma estratégia importante para aproximar as famílias na construção de cultura leitora, que é tarefa para toda uma vida, e deve começar em casa já na primeira infância, quando as crianças ainda não sabem falar. O professor-leitor, auxiliado por uma bela biblioteca na escola, pode muito. Agora é lei [12.244/10], até 2020 todas as escolas do país, públicas e privadas, devem ter uma biblioteca.

É preciso reconhecer que a biblioteca é um espaço organizado para a convivência cotidiana com a leitura e que não existe um usuário-leitor típico, e, sim, uma multiplicidade de usuários-leitores agindo em nome de necessidades, valores, hábitos e expectativas variáveis. E a boa biblioteca é aquela que atende e surpreende seu público com ofertas de leituras igualmente variáveis e reveladoras, que coloca à sua disposição todos os recursos que permitam que desenvolvam uma leitura de mundo apurada, sensível, inovadora, e que contribuam para que se "aprenda a aprender" como atuar, ser sujeito, cidadão e solidário num mundo em permanente transformação.

Christine Castilho Fontelles é cientista social formada pela PUC-SP com MBA em marketing pela FIA/FEA-USP. É conselheira do Movimento por um Brasil Literário e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), além de fundadora da Centhral do Brasil — Consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita. Coordena também a campanha Eu Quero Minha Biblioteca (http://www.euquerominhabiblioteca.org.br/).