domingo, 25 de junho de 2017

Como formar um leitor

Por Christiane Angelotti

Desde muito cedo nós, pais, somos bombardeados por mensagens e campanhas sobre a importância da leitura. Os benefícios são realmente muitos, pois a leitura contribui para o desenvolvimento intelectual, social e emocional da criança. Podemos citar alguns deles, como despertar a criatividade, estimular a curiosidade, a inventividade, a imaginação, expandir o vocabulário, ajudar a nos colocar no lugar do outro e, assim, desenvolver empatia, auxiliar a combater o estresse, e contribuir para o desenvolvimento cerebral e de habilidades como concentração e memorização.


Uma das grandes perguntas que nos fazemos:
como formamos um leitor?

A leitura é um hábito que se aprende e se desenvolve. Se a criança irá manter a prática quando crescer há muitas variantes, mas a tendência é que sim. Será um adulto apaixonado por leitura? Muito provavelmente. A certeza que se tem é que o repertório que se forma na infância influenciará durante toda a vida e que só valorizamos algo de verdade se conhecemos e temos boas memórias dessas experiências.

Antes de tudo, para criar um leitor, seja um leitor. Filhos de pais que leem com frequência são mais propensos a desenvolver o interesse pela leitura. É um processo natural, é a educação pelo exemplo. As crianças veem seus pais lendo e sentem curiosidade em ler, são familiarizadas com a leitura. O livro e a leitura passam a ser algo tão natural em sua rotina que conhecê-lo e explorá-lo passa a ser um processo de aprendizado natural.

Comece cedo. Livros para bebê são de extrema importância e não um luxo. Ler em voz alta para o bebê é uma experiência rica. O som da voz do adulto lendo para o bebê, a entonação, a cadência das palavras, tudo isso é estimulante para os pequenos. A criança exposta ao “mundo das palavras” desenvolve melhor a linguagem e o processo de alfabetização. Quando o adulto lê para o bebê, muda a entonação de sua voz, sorri, se espanta, olha em seus olhos. E todas essas experiências transmitem afetividade, atenção e fortalecem a experiência da leitura, tornando-a uma atividade prazerosa, além de fortalecer o vínculo afetivo. 

O bebê em contato com o livro usa seus sentidos para explorá-lo enquanto objeto, observa as cores das ilustrações, a textura das páginas. E não se engane, mesmo quando parecer que ele não está prestando atenção, ele estará absorvendo algo da experiência de leitura. Muitas vezes o bebê emite sons enquanto o adulto lê para ele, estes sons tem intenção comunicativa, então, responda e atribua um significado dentro do contexto da leitura. Momentos como esse são respostas do pequeno para a atividade leitora. Além disso, quando o adulto lê em voz alta para a criança, contribui para que ela associe a atividade da leitura com o som de sua voz e a proximidade física e emocional que essa atividade feita com ela traz. Uma das formas mais eficientes de construir uma associação positiva com os livros que pode durar por toda a vida.

Leia para a criança. A leitura compartilhada é um ato de amor, é troca. Mesmo quando a criança começa a ler sozinha, a leitura feita por um adulto em voz alta é importante e continua a fortalecer o vínculo afetivo. Enquanto a criança ouve o adulto lendo, ela absorve tudo o que envolve a experiência da leitura compartilhada: aprende novo vocabulário, novos conceitos, estrutura de linguagem, apreende o ritmo de leitura, entonação, além de ter ali um interlocutor à sua disposição para interromper, fazer perguntas (o que demonstra que a criança está envolvida com a história), trocar impressões. Experiências significativas de leitura feitas por pais, familiares ou educadores contribuem qualitativamente para a formação do pequeno leitor.

Leia em qualquer horário. A leitura antes da hora de dormir é uma atividade que muitos pais já incorporaram na rotina. Ela é realizada também com o intuito de acalmar a criança e prepará-la para a hora do sono. Também porque muitos pais chegam em casa tarde e esse é um horário em que buscam fazer alguma atividade com os filhos. Mas podendo, leiam também em outros horários. Há livros que estimulam a criança a criar uma nova brincadeira, uma nova e divertida atividade.

Compartilhe seus livros preferidos. A leitura também é um momento de compartilhar. Mostrar para a criança histórias que você adulto gosta ou que gostava quando criança ajuda a ampliar o repertório infantil.

Jane Tanner, Austrália, 1946
Respeite as preferências da criança. As crianças vão construir suas preferências que não necessariamente serão parecidas com os gostos dos pais. Por isso, respeite se ela não gosta tanto de uma história como você gostava quando pequeno.  Às vezes, em determinadas fases, alguns temas vão chamar mais atenção da criança, então procure conhecer suas preferências e oferecer também leituras relacionadas a elas.

Monte um cantinho da leitura. Disponibilize um local para que os livros estejam em fácil acesso para que a criança possa pegá-lo sozinha. Ela não precisa ler somente nesse local, mas é importante que saiba que lá é o local para pegar e guardar seus livros.

Leve a criança para passear em livrarias e bibliotecas. Deixe que ela escolha os livros que irá levar para casa, mostre como funciona a biblioteca, o empréstimo de livros etc.

Representatividade. Criança gosta de se identificar com as histórias, de se ver nos livros. Por isso é importante que procuremos oferecer a elas também livros que falem de uma variedade de tradições culturais, de diferentes etnias, para que ela aprenda a valorizar as suas tradições e características e a dos outros.

Não há tema proibido para criança. Desde que sejam histórias bem escritas não há tema proibido para a leitura das crianças. Elas absorverão o que tiverem necessidade naquele momento de leitura.  Morte, guerra, fome, política, entre outros, livros falam da sociedade em que vivemos e a criança tem curiosidade em entender e aprender sobre ela.

Tom Browning, A Babys First Book
Procure oferecer às crianças livros de qualidade. Como qualquer outro produto, e assim como os livros destinados ao leitor adulto, não são todos os livros infantis que possuem uma qualidade literária e estética. Há boas editoras especializadas em livros infantojuvenis que primam por essa qualidade e serviços de curadoria de conteúdo que fazem esse trabalho, afinal um texto bem cuidado, bem editado, bem escrito e ilustrado é capaz de contar uma boa história sobre qualquer tema, fazer a criança “viajar na imaginação”, proporcionar uma leitura de imagens com diversidade de traços de ilustração, conferindo assim um repertório de imagens e textos de riqueza singular. Só livros com qualidade literária podem, de fato, contribuir para a formação de um leitor, pois não menosprezam a inteligência dele, o seu poder de compreender aquilo que não está escrito, mas que fica subentendido. Os livros que não têm essa preocupação, não prendem a atenção do leitor, não estimulam a imaginação e acabam por oferecer uma leitura superficial e empobrecida.

Não limite a escolha de livros a idade e gênero. Todos os livros para crianças podem ser lidos por meninos e meninas, sem distinção. A idade não é tão relevante para a escolha de livros. O mais relevante é a experiência da criança como leitora e os temas que chamam a sua atenção.