sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Uma reflexão sobre o conto de fadas 'O Barba Azul'

Por Claudia Souza 

Análise baseada no livro SU BARBA NON ERA TAN AZUL

De: Angela Articoni, Benilde Ediciones, Espanha (tradução de "La sua barba non è poi così blu... immaginario colletivo e violenza misogina nella fiaba" di Charles Perrault, Aracne Editrice, Itália)

Angela Articoni é PHD em Pedagogia e Ciências da Educação pela Universidade de Foggia, Itália, com especialização universitária em Literatura Infantil. Fundadora e coordenadora da página Facebook "Letteratura per l'Infanzia" e de um blog sobre o tema.

Imagem: Capa Marco Lorenzetti.

A violência de gênero é um tema espinhoso que vem sendo cada vez mais abordado socialmente, numa tentativa, protagonizada por algumas mulheres importantes do nosso tempo, de conscientizar mulheres de todas as idades de seus direitos e de como defender-se dos perigos que as relações com certo tipo de homem podem representar. No livro analisado, a Professora Doutora Angela Articoni, sempre muito empenhada nesse tipo de discussão, nos conduz em uma viagem profunda e detalhada sobre o conto tradicional do misógino Barba Azul, associando-o, enquanto imaginário coletivo, a esta nódoa social que nos acompanha historicamente.

Os contos de fadas, é sabido, têm um profundo significado simbólico e se referem, em modalidade literária, a situações complexas da existência humana. Daí sua enorme importância na nossa civilização, como catalizadores de temores, “fantasmas” (no sentido psicanalítico), necessidade de redenção e de “cura” psicológica. Nesta importância reside sua continuidade numa sociedade em constante mudança. O conto de Barba Azul, escrito pelo francês Charles Perrault no século XXVII, vem de encontro a sentimentos muito arcaicos do “ser mulher”, já tratados em mitos na Antiguidade: a curiosidade, a ambivalência, a subserviência, a submissão, a força da intuição, a violência de gênero justificada.

Partindo de uma análise detalhada do conto no imaginário coletivo, abordando símbolos (chave, porta, sangue), arquétipos e psicanálise, na Literatura, na Música, na Linguagem Visual e passando por personagens históricos reais (Conomor, Henrique VIII e o francês Giles de Rais) Angela Articoni tece a trama entre sociedade e conto: de fato, o conto de fadas nasce a serviço de uma ação pedagógica do autor em relação às mocinhas da corte francesa e persiste no tempo, atingindo leitores em nível mundial. Para depois partir, na segunda parte do livro, a um estudo minucioso seja das diversas versões (em diversos países) e transformações que das representações de Barba Azul em outros campos artísticos, como o cinema. 

Bem no meio do livro, porém, encontra-se, para os apaixonados de ilustração de livros infantis, um capítulo inteiramente dedicado às imagens que, através do tempo, vêm acompanhando esta história. Neste capítulo tive a surpresa de encontrar, muito bem sintetizada e muito instrutiva, inclusive uma breve história da Ilustração, desde o Homem Pré-Histórico até as tendências predominantes nos nossos dias. História contada por Angela Articoni, grande especialista em Literatura para a Infância, grande referência italiana no assunto, com um olhar agudo e inteligente, que nos faz presente a importância do diálogo texto-imagem para a preservação das qualidades narrativas dos contos de fadas. Por exemplo, saber que “a primeira versão ilustrada que se tem notícia de Barba Azul é um manuscrito anônimo de 1695, ou seja, antes de sua publicação inicial e que este manuscrito está na Pierpont Morgan Library de Nova York foi uma grande satisfação. Mas também acompanhar detalhes do trabalho de Doré, de Walter Crane, de Dulac, todos grandes pintores/ilustradores clássicos, para depois chegar aos álbuns ilustrados atuais, recheados dos maiores ilustradores da contemporaneidade. 

Su barba no era tan azul é um livro importante que, espero, possa ser traduzido para o português em breve. Enquanto isso recomendo vivamente a sua leitura em espanhol.

Claudia Souza é escritora para a infância com livros publicados em 8 idiomas e psicóloga da Educação formada pela Universidade Federal de Minas Gerais com reconhecimento pela Universidade Sapienza de Roma, Itália.