segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Hora de dormir

Por Fernanda Passamai Perez

'Não quero dormir!' gritou o pequeno príncipe que morava num reino distante, há muito, muito tempo atrás. A pedido do rei, médicos, cozinheiros, dançarinos, feiticeiros e até mágicos apareceram para tentar fazer o príncipe dormir. Nada nem ninguém teve sucesso. Até que chegou ao castelo uma simpática senhora, muita sábia, trazida pela ventania, que trouxe um instrumento muito poderoso, que fez  o cansado menino fechar os olhos e finalmente cair em sono profundo. Fim.

Esse tema — da criança que resiste ao sono — é bem conhecido e recorrente em vários ‘reinos’ que nem são tão distantes distantes assim, não é mesmo? Que família não lembra de cenário semelhante?

Exceção para as situações em que os pequenos estão manhosos por conta de alguma enfermidade ou agitados por algum acontecimento diferente na sua rotina. Muitas podem ser as razões para a resistência, às vezes é o próprio sono que impede a criança de relaxar e cair nos braços de Morfeu. E convencer os pequenos de que está na hora do descanso necessário pode ser tornar um drama.

Portanto, para esses casos mais corriqueiros, que tal usar a mesma estratégia da simpática velhinha: ler para as crianças na cama. Pode ser qualquer história, mas e se forem histórias divertidas com um toque dramático, que fazem pais e filhos refletirem sobre os combinados noturnos?

A seguir, sugiro alguns títulos que podem contribuir para a tranquilidade desejada nesse momento do dia que deve ser de completo relaxamento e aconchego.  Destaque para as ilustrações que compõem as obras.

Boa noite!

— Outra vez! Outra vez! Outra vez! — pedia Cedric, o pequeno dragão, toda vez que a mãe terminava de ler a história. Cada vez que ela contava, a história tomava um rumo diferente até que todos, mãe e personagens, cansados, adormeceram. E agora, será que Cedric também vai embalar no sono?

O projeto gráfico desse livro traz uma experiência de leitura muito intensa. Desde a capa, que tem uma luva,  até a contracapa, que tem um furo, este livro vale ser explorado de todas as formas, transformando o leitor em personagem  da história. Hilário!




GRAVETT, Emily. Outra vez! São Paulo: Moderna, 2012.

Uma da manhã, Marcos percebe que Fred não está em sua cama, e, sem o amigo, não consegue dormir. Ele pede à irmã que o ajude a encontrar o cachorro. Estela, que já estava dormindo, sugere que o irmão conte carneirinhos, mas Marcos só sabe contar até três. A menina resiste o quanto pode até que percebe que só conseguirá dormir quando o irmão tiver o amigo consigo na cama. Ambos saem pela casa iluminada somente pela luz da lua, em busca do cachorro. Mas será que Marcos procurou direito?

Aqui é Estela, a irmã mais velha, quem acolhe o irmão. Ela tenta estratégias que claramente aprendeu com os pais, mas que nesse caso não dão certo. Nem um pouco de bom humor, como é de se esperar, a menina se levanta e acompanha o irmão na busca do cachorro que não está de fato tão perdido assim.

GAY, Marie-Louise. Boa noite, Marcos. São Paulo: Brinque-Book, 2007.

Hora de dormir. Tudo pronto para ir para a cama. Bem, quase tudo, faltou a história, informa Galinho. Papai decide ler uma das histórias preferidas do filho e combina com ele que dessa vez ele não vai interromper a leitura. E, então, começa a ler João e Maria. No momento em que os irmãos estão para aceitar o convite da doce velhinha que mora numa casa feita de doces, Galinho assusta seu pai dizendo aos gritos:

De repente apareceu um galinho vermelho e disse 'Não entrem! Ela é uma bruxa! Então, João e Maria não entraram. Fim!' — disse todo satisfeito Galinho. O pai não gostou nada daquele envolvimento do filho com aquela história e resolveu ler Chapeuzinho Vermelho. Novamente, Galinho não se contém e interrompe a história. E assim, uma após a outra, as histórias tomam um rumo diferente. Percebendo o inevitável — a interrupção do filho —, o pai reverte a situação e pede para ouvir uma história. Galinho assente, coloca o pai para dormir e começa a contar a sua a história quando, de repente... é interrompido.

Além de ilustrar o ritual noturno, O Galinho que interrompia faz a intertextualidade direta com os contos tradicionais e atesta o envolvimento do leitor com essas narrativas a ponto de se colocarem como coautores delas, depois de se apropriarem do seu conteúdo e sentido, definindo as atitudes dos personagens e até finais diferentes. Envolvimento precioso e que pode estreitar os vínculos das crianças com a leitura literária.

STEIN, David Ezra. O galinho que interrompia. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

No escuro de seu quarto, Marco queria dormir. Queria mesmo, mas não conseguia. Então chamou a mãe e contou que estava com medo de que mosquitos gigantes o picassem. Prontamente ela criou um traje anti-mosquitos. Não adiantou, agora Marcos estava com medo de cair da cama. Então, a mãe lhe deu cordas, um paraquedas e o prendeu ao travesseiro com uma âncora. Nada. Ainda assim, Marcos tinha medo de que a lua derretesse e de que o Vento Mau soprasse. Marcos estava com medo de tudo! E agora, como proteger o filho do medo de Tudo? Será que subir no telhado para vigiar o mundo resolve?

Narrativa divertida e ágil, que ressalta a superproteção materna e brinca com os pais. Deixa claro que a convicção de que se pode moldar o mundo e impedir o sofrimento do filho não passa de mera fantasia. Pode ser que sentir medo seja legítimo e bom para a criança. E estar ao lado dela, dar acolhimento e buscar entender o que ela quer comunicar através de seus medos pode ser mais eficaz. Espetacular!

KESELMAN, Gabriela. Marco queria dormir. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.

Prestes a ir para a cama, a menina queria ouvir uma história, mas a mãe, cansada, só lembrava do conto de sempre. A filha, desejosa de uma história mais intensa e dramática, de repente assumiu o comando da narrativa, criando um enredo extraordinário com um desfecho surpreendente.

Esse conto rompe com a expectativa daqueles que acreditam que criança só gosta de histórias bonitinhas, com personagens bonzinhos. Ao assumir o controle, a menina expõe seu personagem ao perigo constante, com certa dose de violência, até seguir para um final respaldado naquilo que ela considera conhecido e seguro. Ela transita entre o perigo, tão assustador quanto sedutor, e a segurança do final feliz.




ESCOFFIER, Michaël. A história da formiguinha que queria mover montanhas. São Paulo: Berlendis e Vertecchia, 2016.

Toda noite o senhor Lua pega seu balde com pó de lua do armário e salpica uma pitada em cima de animais aqui na terra que imediatamente dão boa noite e dormem um sono profundo. Satisfeito, o senhor Lua vai atrás de Rosa e joga um pouquinho de pó na direção dela. Contudo, Rosa não quer dormir e se esconde embaixo de uma grande folha enquanto vê o pó atingir o chão. Quando o senhor Lua percebe que a sapeca patinha ainda está acordada, começa um jogo entre eles. Quem sairá vencedor? Quanto pó de lua, ou paciência, ainda téra o senhor Lua?

Como lidar com a criança que além de não querer dormir ainda causa transtornos na casa? Qual o limite da paciência? Ficar bravo ou bater resolve? Em Bons sonhos, Rosa pode-se observar um bom exemplo do posicionamento do adulto em relação à criança que testa os limites dos pais.

MINNIE, Brigitte. Bons sonhos, Rosa. São Paulo: Brinque-Book, 2003.

Em Pererecópolis, depois de um longo e agitado dia, assim que a noite chega, os carneiros se preparam para dormir. Em pouco tempo todos estão dormindo. Todos, menos... Rodolfo. Por mais que queira, ele não consegue pegar no sono. Tenta o escuro, mas o escuro lhe dá medo. Pode ser o calor. Então ele tira o manto, mas logo sente frio. Quem sabe mudando de lugar... mas ele só consegue encontrar lugares apertados ou lotados. Bem, contar estrelas, quem sabe? Nada. Ele continua acordadíssimo. Rodolfo decide finalmente contar... carneirinhos. Será que agora ele dorme?

As ilustrações são o destaque. Rob Scotton fez um livro em que o texto e a imagem são indissociáveis.  A leitura simultânea de texto e imagem amplifica o sentido da obra e estimula a participação dos pequenos que vão fazer a leitura das imagens rapidamente. Espere muitas interrupções.

SCOTTON, Rob. Rodolfo, o carneiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

Hora de dormir, livro que inspirou esta matéria, é muito divertido. Mostra os pais perdidos, sem saber o que fazer para que o filho durma. Será que o reino realmente deve ficar acordado por conta da falta de sono do menino? Por outro lado, como dormir quando se é príncipe e se tem a atenção de todos? Retomar o controle da situação pode funcionar.

OPPENHEIM, Joanne. Hora de dormir. São Paulo: Girafinha, 2007.







Fernanda Passamai Perez é graduada em Letras e especialista em Literatura Infantojuvenil. Atua como mediadora de leitura na Biblioteca Tatiana Belinky e coordena o clube de leitura Vilalê, ambos na Escola da Vila. É membro do juri da revista Crescer para seleção dos 30 Melhores Livros para Crianças desde 2015.