quarta-feira, 2 de novembro de 2016

'De amor para entender': sobre livros para jovens leitores

Por Susana Ventura

Ler para as crianças e acompanhar sua evolução na aquisição de capacidades de compreensão leitora é das coisas mais fascinantes da vida de um adulto. Mas, quando o tema é seleção, surge um amontoado de dúvidas: o que escolher numa biblioteca, numa livraria, nas bancas de jornais, nos acervos das nossas famílias?

Então, sirvo-me do verso magnífico de Dorival Caymmi  'Por que de amor para entender é preciso amar? Por quê?'* para encorajar a nós todos, leitores adultos: vamos ler mais livros destinados a crianças e jovens porque, para entender deste incrível ramo da literatura, é preciso ler. 

Comecemos pensando na nossa história pessoal com a matéria dos sonhos de que é feita a literatura. Para muitos de nós, as narrativas e poemas chegaram através de uma voz. Sim, pois somos sociedade fundada na oralidade. Quantos relatos me chegam todos os dias — na prática de sala de aula — de encantamentos infantis com histórias narradas por algum familiar ou pelos discos de histórias que marcaram gerações de crianças... Foi muitas vezes uma voz o princípio do caminho pessoal com a literatura. E depois? Muitos caminhos: a escola, aquele livro recebido como presente, uma biblioteca de bairro? Ou uma estante de livros encontrada em alguma casa frequentada na infância? Quaisquer que sejam as respostas para as perguntas, a maior parte dos adultos não voltamos a ler os livros destinados aos jovens leitores a não ser quando nos tornamos educadores, bibliotecários, pais ou mediadores de leitura. 

Então, perante um mar de possibilidades nos sentimos perdidos. Leitores desligados deste universo por décadas, normalmente nos vemos diante de um acervo que cresceu em quantidade e sofisticação. 

Sim, pois enquanto nós mesmos crescíamos e nos tornávamos adultos, a produção de livros para jovens leitores no Brasil cresceu vertiginosamente e a qualidade gráfica deu um salto notável.  A ilustração ganhou terreno e atraiu cada vez mais artistas, o design gráfico tomou para si o desafio de realizar livros cada vez mais atraentes.

A aproximação ao universo dos livros para jovens leitores é aventura que pode começar com a reconexão com sua história pessoal de leitura e continuar com a disponibilidade para fruição. Muitos recomeçamos esta jornada estimulados pelo grupo que está à nossa volta: crianças, jovens, frequentadores de grupos que mediamos. Estes nossos interlocutores trazem materiais e demandas próprias: provenientes da escola, das bancas de jornais, das estantes domésticas, da internet, e precisamos lidar com isso.

Gostaria de dizer que construir, como adultos, um caminho próprio de leituras a partir desse estímulo pode ser uma bela aventura de conhecimento pessoal.

Se posso sugerir um percurso, os contos de fadas seriam uma boa primeira parada. Contos de fadas: de Perrault, Grimm, Andersen & outros, apresentação de Ana Maria Machado e tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, editado pela Zahar em 2010 é um bom companheiro com o qual se descobrirá que a memória que temos desses conteúdos selecionou, segundo nossa história pessoal, o que para nós foi importante (e pode mudar agora). Para continuar e pensar o Brasil, Contos e fábulas do Brasil, de Marco Haurélio, com classificação e notas de Paulo Correia, editado pela Nova Alexandria, é um livro imprescindível. Atualíssimo e com rigor de pesquisa, sendo ao mesmo incrivelmente saboroso, é uma obra de referência. 

Nestas duas publicações as ilustrações já mostram o seu poder: na primeira, os grandes ilustradores europeus do século XIX e  início do XX aparecem e, na segunda, Severino Ramos representa a visão brasileira de contos e fábulas que são nossos.

Está lançado o desafio para um começo de caminho. Quem aceita? 

* Canção 'Só louco'.

Susana Ventura é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo – USP, pesquisadora da área de Literatura para Crianças e Jovens e autora.