quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Pais e professores: modelos de leitores


Por Januária Cristina Alves

Peço licença para iniciar esse artigo com um poema de Cecília Meirelles, que gosto muito de usar quando ministro cursos sobre a experiência de se ler jornal.


JORNAL, LONGE

Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias, anúncios, fotografias, opiniões?

Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra: e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens? Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta: "Os jornais servem para fazer embrulhos".

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.

(In: Poesias Completas)


Como nos ensina a poeta, a leitura do mundo prescinde dos relatos, das notícias, dos telegramas, das opiniões. Todos sabemos ler o que ocorre "entre a terra e o céu", qualquer um é capaz de entender o que nos ensina "a flor que nasce" e "a abelha que voa". E, se isso é verdade, o que buscamos nos livros? Por que ler é algo tão importante nos dias de hoje? Por que todos nós, pais e professores, nos preocupamos em formar leitores competentes?

Arrisco-me a dizer porque os livros nos ensinam a ver mais e melhor o que ocorre e o que nos ocorre. Porque os livros revelam mais do que muitas vezes conseguimos sequer perguntar, os livros surpreendem, provocam, inquietam, ensinam. Eles são um caminho seguro para fazermos boas perguntas, que é a matéria da qual é feita a vida. 

Nos livros moram as histórias. E desde que nascemos somos constituídos por elas. Como afirma a escritora inglesa A.S. Byatt: "Contar histórias é algo intrínseco ao tempo biológico, do qual não podemos fugir. Sobre nós, como sobre Sherazade, paira uma sentença de morte e todos pensamos em nossas vidas como narrativas, histórias com começo, meio e fim." Nesse sentido, ler histórias nos garante o exercício que nos mantém vivos e esperançosos, enquanto contamos (e escrevemos) o nosso inevitável final, que queremos feliz.

Por isso, costumo dizer que a Educação para a Literatura ou Educação Literária começa no momento em que nos inquietamos para querer saber mais. Sobre o mundo que nos cerca, sobre as pessoas, sobre nós mesmos. E isso ocorre muito cedo. Por isso, nosso modelo de leitor é aquele que está próximo de nós, normalmente nossos pais e/ou familiares e nossos professores. São eles que nos contam histórias, que narram sobre o que veem, sentem,  intuem, são eles que interpretam o mundo para nós, desde o princípio.

Pais e professores que estão dispostos a ver o mundo com olhos de quem quer saber mais são ótimos exemplos de leitores. Com certeza gostarão de contar e ouvir histórias, de ler livros inteligentes e instigantes, e também escreverão cartas, poemas e textos afins. Isso porque creio que escrever e ler são faces da mesma história, uma coisa puxa a outra. 

Creio que formamos bons leitores, leitores competentes, quando lhes mostramos que a curiosidade é um motor poderoso, que nos leva inevitavelmente a estar mais atentos na vida e, portanto, mais vivos. Essa postura nos leva a encontrar nos livros um porto seguro quando as dúvidas nos parecem muito pesadas, ou um lugar tranquilo quando queremos saber o que nem nós mesmos sabemos que queremos. Uma boa história, inevitavelmente, nos mostra um caminho dentre os muitos que sabemos existir. E isso, vamos combinar, é tudo o que precisamos para continuar a viver (e a escrever) a nossa história.

Januária Cristina Alves é jornalista, infoeducadora e escritora, com mais de 40 livros publicados. Em 2014 ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura com o livro Para ler e ver com olhos livres, da Editora Nova Fronteira. Ministra cursos e oficinas sobre Educação Literária. Para saber mais acesse www.entrepalavras.com.br