quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O analfabetismo funcional

Por Christiane Angelotti

Com os estudos e as pesquisas cada vez mais aprimorados sobre os processos de leitura, foi descoberto que ela vai além da decodificação do código escrito. Ler implica numa estreita relação com as atividades do pensamento e aprendizado. Aprendizagem é a atividade que leva o indivíduo a elaborar mentalmente as estruturas cognitivas, desenvolver competências e mudar comportamentos. Já o pensamento é a base do conhecimento. É a faculdade do processo mental que faz com que o indivíduo modele tudo o que experiencia.


Ler é uma das mais importantes portas de entrada para o conhecimento.

A importância da leitura é debatida há muito tempo, várias ações têm sido empregadas para que a sociedade se conscientize de sua importância. Porém, infelizmente, não há ações suficientes para combater um grande inimigo da leitura, o analfabetismo funcional. Tal assunto é um crucial problema da área de educação e que também diz respeito aos profissionais envolvidos com a literatura.

 Analfabetismo funcional é a denominação dada ao indivíduo que sabe ler, decodifica códigos, frases, textos, mas que não consegue interpretá-los. A dificuldade em interpretar textos e articular ideias é algo muito mais comum do que se imagina. Estima-se que na população alfabetizada cerca de 70% são analfabetos funcionais. Entre as causas desse problema está a baixa qualidade do nosso sistema de ensino, não só o público, como também o privado. Vale ressaltar que o analfabetismo funcional é subdividido em níveis e afeta a população independente do grau de instrução.

Vale lembrar que há duas formas de analfabetismo. O analfabetismo absoluto e o analfabetismo funcional. O primeiro refere-se àquelas pessoas que não tiveram acesso à educação, ou o tiveram interrompido antes de aprenderem a ler e escrever. Já no analfabetismo funcional, segundo a UNESCO, "uma pessoa funcionalmente analfabeta é requerida para uma atuação eficaz em seu grupo e comunidade, e que lhe permitem, também, continuar usando a leitura, a escrita e o cálculo a serviço do seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento de sua comunidade".

Em 2012, o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa divulgaram o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF) entre estudantes universitários do Brasil e constataram o percentual de 38% da população, refletindo também o expressivo crescimento de universidades de baixa qualidade nas últimas décadas. Em alguns países desenvolvidos, como a Suécia, esse índice é inferior a 10%.

É bom não confundir preguiça de ler com o analfabetismo funcional. Em tempos de redes sociais é muito evidente vermos pessoas expressarem suas opiniões sobre textos, citações etc. sem os terem lido realmente, ou lerem apenas as manchetes para falar sobre o conteúdo do texto (não lido). Motivos para tal comportamento são diversos, muito provavelmente alguns até podem ser analfabetos funcionais.

Apontar o problema é mais fácil que ajudar a combatê-lo. O preconceito é um fator que atrapalha o processo de erradicação do analfabetismo funcional. Muitas vezes o analfabeto funcional que tem consciência se esconde por vergonha e receio da reação por parte da sociedade.

O analfabetismo funcional limita o desenvolvimento profissional e pessoal.

O que podemos fazer? Além de cobrar do governo um sistema de ensino de qualidade, em casa a família deve ler para as crianças desde cedo, estimular conversas sobre livros, assuntos como notícias em jornais impressos, revistas. Buscar livros que interessem aos jovens leitores pelos temas, que estes chamem a sua atenção. Tratar a leitura como um prazer para que ela entre efetivamente na vida da criança.

Na escola o professor leitor deve conversar sobre livros, leitura e literatura. Promover trocas e debates. Conhecer as preferências dos alunos e trabalhar com elas. Apresentar diversos tipos de textos, diferentes plataformas e suportes de leitura (leitura em revistas, livros, jornais, gibis, tablets, celular, etc.), sempre mostrando que a leitura é um processo também particular e que cada um descobre o seu.

A proximidade com os livros e o mundo da leitura, tudo que ela proporciona, é uma das armas mais fortes para se combater o analfabetismo funcional. E pouco adianta todos os programas de facilitação de acesso ao livro se o leitor não tiver a capacidade de assimilá-lo.