segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Literatura de Cordel

Por Christiane Angelotti

A literatura de cordel é um gênero da poesia, em geral escrito em rimas, baseado em relatos orais e impresso em forma de folhetos. 

O cordelista é um poeta popular, representante da voz do povo, um repórter dos acontecimentos da vida. Por meio de cordéis, ele narra fatos da vida cotidiana da população (local , nacional ou mundial), notícias e lendas.

O cordel são folhetos, livretos, que podem ser encontrados em feiras turísticas, praças e mercados das cidades, muito mais comum na região Nordeste do Brasil. Hoje podemos encontrá-los também em bancas de jornal, livrarias, aeroportos, praças de artesanatos, e em sites na internet. Tais folhetos eram produzidos muitas vezes em gráficas antigas, sem grande tecnologia, de uma forma quase manual. Hoje, com a divulgação deles, podemos encontrá-los em fotocópia, livros, CDs.  

Por muito tempo o cordel foi a única fonte de leitura do povo do sertão nordestino, alcançando lugares onde o jornal e os livros não chegavam.

Os cordéis utilizam capas com xilogravuras e dizeres chamativos. 

As xilogravuras não estavam presentes nos cordéis mais antigos. A partir de 1930 elas passaram a ilustrar as capas dos cordéis. A xilografia é a arte de gravar gravura em madeira e imprimir no papel. Teve sua origem provavelmente na China, sendo conhecida desde o século VI. No Ocidente, ela se afirmou durante a Idade Média, através de iluminuras e confecções de baralhos. Atém então, a xilogravura era apenas uma técnica de reprodução de cópias. Só mais tarde é que ela começou a ser valorizada como manifestação artística. Quem faz a xilogravura é o xilógrafo.

Não há regras para a escolha do tema de um cordel, este pode narrar desde as aventuras de Lampião, até acontecimentos importantes de interesse público. 

Com uma rica variação de versos, a poética de cada folheto conta fatos do cotidiano, histórias de bichos, narrativas tradicionais, histórias de amor, de personalidades importantes na cultura nordestina (como padre Cícero, Lampião, etc.), de figuras públicas, acontecimentos noticiados por jornais (cordel circunstancial), rádio, televisão. 

Os poetas populares costumam classificar a literatura de cordel em cinco temas mais frequentes: romance, valentia (história de um valentão, que sempre acaba mal), gracejo (uma história engraçada), desafio e encantamento (histórias de reinos encantados, com fadas e bruxas). 

Ariano Suassuna (1927 - 2014), escritor, poeta e estudioso do assunto, classificou a literatura popular em versos/cordel como: o heróico, o maravilhoso, o religioso ou moral, o satírico e o histórico. 

O tamanho do cordel pode variar, há aqueles que têm no máximo 8 páginas, há os de 32, dependendo do estilo do autor e do gênero do folheto. Muitas vezes, o próprio poeta popular é o editor e vendedor de suas histórias, que são penduradas num cordão, como cordão de varal. 

A prática da literatura de cordel teve influência dos povos espanhóis, franceses e, principalmente, portugueses, que se fixaram na região nordeste na época da colonização. Na Espanha, França e em Portugal a literatura de cordel é escrita em prosa, no Brasil a característica marcante é o cordel escrito em verso, no estilo dos repentistas. 

Dois grandes folcloristas brasileiros, Luís da Câmara Cascudo e Manuel Diegues Júnior, deram grandes contribuições aos estudos da literatura de cordel. Cascudo, em vários livros, entre eles o Vaqueiros e Cantadores e Cinco Livros do Povo, e Manuel Diégues Júnior, no ensaio Ciclos Temáticos na Literatura de Cordel, abordaram a veiculação dos folhetos de feira, a partir do século XVII, com as "folhas volantes" ou "folhas soltas", em Portugal. 


*Xilogravura gentilmente cedida pela ABLC- Academia Brasileira de Literatura de Cordel . Autoria de José Francisco Borges.

No começo do século XX a literatura de cordel tornou-se mais conhecida passando a conquistar cada vez mais leitores e poetas. Entre os inúmeros autores de cordel, alguns nomes se destacaram como o poeta paraibano Leandro Gomes de Barros, que escreveu uma versão brasileira de História da Donzela Teodora. O cordelista foi considerado por Carlos Drummond de Andrade o "rei da poesia do sertão". Outros nomes que se destacaram: Apolônio Alves dos Santos, Firmino Teixeira do Amaral, Francisco das Chagas Batista, entre outros. 

Proibida a reprodução deste texto sem autorização prévia da autora. 

Bibliografia:

CASCUDO, L. C. Vaqueiros e cantadores. São Paulo: Global Editora. 
CASCUDO, Luís da Câmara, 1898-1986. Cinco livros do povo: introdução ao estudo da novelística no Brasil. 1953.

Sites:

O site Jangada Brasil tem um ótimo acervo sobre contos populares e literatura de cordel, incluindo referências bibliográficas fundamentais para quem deseja saber mais sobre o tema.

Para saber mais sobre Manuel Diégues Júnior:

J. Borges:
Documentário de 24 min sobre o grande mestre, cordelista, poeta, xilogravurista, J BORGES, gravado em Bezerros e Caruaru.

Academia Brasileira de Cordel:

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